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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

P302 - Soube antecipadamente a minha especialidade e não entreguei as habilitações (...) Claro, seria atirador. Por: João Maria Pereira da Costa, ex. Fur. Milº Operações e Informações, BART 2857 (CCS)

MSG com data de, 17FEV2017 partilhada comigo no FACEBOOK, após alguma conversa achei interessante dar a conhecer neste espaço, como foi o início da vida militar deste nosso camarada, com a devida autorização do autor.
Devo referir que este nosso camarada é um dos fundadores e administrador do blogue: BART 2857 - GUINÉ 1968/70 constituído pelas CCS/Piche, CART 2438/Bajocunda, CART 2439/Canquelifá e CART 2440/Piche.



Boa tarde caro S. Castro.
Fui Furriel Miliciano. Soube antecipadamente a minha especialidade e não entreguei as habilitações, embora pressionado pelo Tenente comandante da minha Companhia de Instrução, amigo da família, que pretendia que fosse para Mafra para a especialidade. Claro seria atirador. Mas a vida tem subtilezas que não dominamos. Irás no final do texto compreender.

Em Outubro de 1967, fui incorporado no serviço militar, na recruta nas Caldas da Rainha, porque me cortaram o «regime de espera» pois frequentava a faculdade e pretendia terminar o curso. Nessa altura ouve uma visita do Américo Tomás à Universidade de Coimbra. O pessoal comportou-se mal e, daí, todos tiveram a minha sorte.

Estive de Janeiro a Março de 1968 em Tavira, na especialidade de Operações e Informações, integrada no Pelotão de Reconhecimento e Informação.
Daqui passei por Penafiel, Abril de 1968, onde tomei conhecimento que estava mobilizado. Poucos dias passados deram-nos ordem para apresentar em Lamego, nas Operações Especiais, a mim e a mais dois quadros, do Pel Rec.Info. que tinham estado comigo em Tavira. Igualmente foi o futuro alferes que viria a comandar o Pel. Rec. Info. Bart 2857.
Em Junho de 1968 terminado o curso fomos os 4 colocados no Porto no RI6, para dar aos recrutas a especialidade de Reconhecimento e Informação.
Fur. Milº Girão e Fur. Milº Pereira da Costa (Piche)
O tempo foi passando e continuávamos no Porto. Entretanto caíu da cadeira o doutor Salazar e os quartéis entraram de prevenção.

Chamados ao comandante perguntamos que tipo de armamento daríamos aos recrutas e sem ou com munições. Estes ficaram com Mausers, julgo descarregadas e todos os quadros do RI6 com armas pesadas.

O Batalhão já tinha ido para Viana do Castelo para o IPO. O embarque estava previsto para 10 de Novembro de 1968.
O tempo a aproximar-se e nós no Porto. Fomos ao comandante e lá nos deixou partirmos para Viana do Castelo. Aqui estivemos nem uma semana. No dia 9 de Novembro embarcamos para Lisboa de comboio. Esperava-nos o UIGE para dia 10 partirmos para a Guiné. Desembarcamos e ficamos em BRÁ. Uma bela noite entramos numa LDG e partimos para BAMBAMDINCA donde de imediato em coluna partimos para Piche. Fizemos a viajem directa.

Enquanto estive em Piche, fui integrado no Gabinete de Operações e Informações, chefiado por um capitão. Planeávamos as operações e do estudo das informações. Todas as semanas eram enviados plásticos com o desenho das Operações. Como a guerra piorava o gabinete foi completado por outro Capitão que só tratava das Informações e da reorganização dos aldeamentos, tanto de Piche como de outros destacamentos.
Fui várias vezes a Bissau `2.ª Repartição, sala onde estava a guerra toda com os mapas na parede. Uma das vezes fomos fazer queixa do 2.º Comandante, então o Comandante do Batalhão, que metia o bedelho e não percebendo nada de artilharia um dia planificou os alvos em cima das nossas tropas. Claro que tivemos que corrigir.

Estava proibido de sair do quartel nem me integrar em colunas porque tinham medo que fosse apanhado pelos turras e os segredos estavam na minha cabeça. Mas ainda saí a um destacamento verificar do andamento das obras e da Mesquita.
A partir daqui entramos no comentário que publiquei.
Um abraço e bom trabalho.
Sempre ao dispor para informações.
Pereira da Costa

Um abraço


sábado, 11 de fevereiro de 2017

P301 - HISTÓRIAS QUE A MEMÓRIA NÃO ESQUECE “A MINHA PASSAGEM PELO XIME DE REGRESSO A CASA” (João M. Pereira da Costa, CCS BART2857)

“A MINHA PASSAGEM PELO XIME DE REGRESSO A CASA”





João Maria Pereira da Costa, ex. Fur. Milº CCS - BART 2857, de Novembro de 1968 a Agosto de 1970.

Guiné - PICHE (zona Leste)

Xime, Agosto de 1970.

Chegados a Bambadinca perto das 05,00 horas da tarde, a primeira leva de regresso a Bissau, terminada a comissão, camionetas com as nossas malas e uma companhia, nos disseram que não havia maré e que teríamos de seguir para o Xime.
Deitei as mãos à cabeça e pensei baixinho vai ficar pelo caminho metade do pessoal em emboscada e depois a passagem da bolanha será tiro ao boneco. As covas na estrada com muita água, as viaturas só andavam através dos guinchos dos Unimogs agarrados às árvores.

Mas enfim!... Felizmente nada aconteceu.

Colocamos as viaturas na descida para o ancoradouro e o pessoal a dormir debaixo delas, pois somente ao outro dia pela manhã chegaria a LDG.
"LDG" no Xime, aquando do regresso à Metrópole do BART 3872 (Foto de Juvenal Amado)

E nós que vamos fazer!?
O pessoal periquito, com três meses de Guiné tudo dentro dos abrigos. Não restava nem mais um buraco para nós.

Começamos então na conversa com os piras. Pessoal, até que horas são aqui os ataques ao aquartelamento. Costumam terminar depois da meia-noite e devem vir da Ponta do Inglês. Então pessoal não existe por aí uma garrafinha de whisky? Nada, metidos nos buracos. Nós tarimbados fora dos abrigos e em cima das valas sem saber como iríamos passar a noite. Eram 20,00 horas. Fomos buscar umas garrafas das nossas e começamos a beber e a oferecer aos piras. Passado o medo o já com o efeito do álcool começaram a sair da toca.
Assistindo à matança da Vaca, ao fundo o Refeitório no Xime, 1972

Bem! Levamos a noite toda nos copos. Já se faziam corridas por cima das mesas do refeitório. Não conto pormenores pois ficou uma imundice.
Portanto não haviam lugares no tal "Hotel Estrela".

Até Bissau fomos a curtir a bebedeira da véspera. Um pouco de cuidado na ponta do inglês, mas tudo correu às mil maravilhas.
Histórias da nossa juventude de guerreiros inconscientes.
Belos tempos. Hoje mais idosos recordamos alguns dos bons momentos e das loucuras por terras da Guiné.
Um abraço a todos quantos passaram pelos vários Spa’s da Guiné.

João Maria P. da Costa

FEV 2017
  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

P300 - A minha ida ao Xime, em 1972 (...) durante a noite eu dormi ”no hotel estrela” junto a um pavilhão [António E. J. Ferreira, CART 3493]



MSG de: António Eduardo Jerónimo Ferreira, ex. 1º cabo condutor auto da CART 3493 do BART 3873, Mansambo, Fámandinga, Cobumba e Bissau, 1972/74, com data de 03 de Fevereiro de 2017 publicada no Blogue "molianos" do qual é editor.



A minha ida ao Xime, em 1972



Estava a minha companhia há pouco tempo em Mansambo, a Cart 3493, quando foi chamada a participar numa operação que teve lugar na zona do Xime, creio que com dois grupos de combate, calhou-me a mim ser um dos condutores que conduziu uma das viaturas que transportou o pessoal. Nesse dia, era já tarde quando lá chegamos, ficamos junto às instalações do Xime o regresso foi ao fim da tarde dia seguinte, durante a noite eu dormi ”no hotel estrela” junto a um pavilhão.
Xime, 1972, vemos a entrada principal do Quartel
No outro dia, enquanto os meus camaradas andaram no mato aproveitei o tempo para conhecer um pouco da tabanca, encontrei lá um camarada que tinha conhecido na Figueira da Foz que era quase meu vizinho mas que antes eu não conhecia, era apontador de obus 10,5, fui com ele, estávamos a ver um local junto a umas bananeiras onde funcionava a escola segundo ele me disse, mas aí a visita foi interrompida, ouviram-se rebentamentos na zona onde estava a decorrer a operação e o Nogueira desatou em grande correria para junto do obus.
Durante algum tempo enquanto decorria a operação a área foi sobrevoada por uma DO, como as coisas mudaram, ainda não se ouvia falar nos Strela. Também tive oportunidade de ver os fiat bombardear relativamente perto da estrada Xime - Bambadinca, aí as coisas também mudaram muito, nesse dia” picaram” quase até chegar à copa das árvores, mais tarde já em Cobumba vi-os bombardear mas a uma altura que nada tinha a ver com o que o que aconteceu no Xime.
Tive também oportunidade de ir até à Ponta Coli onde estava pessoal a fazer segurança, depois aproveitei a boleia e fui com três camaradas do Xime até ao cais onde pude ver o movimento que ali havia e também um enorme buraco que tinha sido feito pelo rebentamento de um foguetão, arma de que eu ainda não tinha ouvido falar, mas aí as coisas complicaram-se a viatura que nos tinha levado enquanto nós estávamos a olhar o rio Geba, abalou e deixou-nos lá, alguns dos que tinham ido comigo não gostamos de lá ter ficado mas fazia parte do grupo um colega sempre bem disposto, sempre a rir, vendo que alguns ficamos algo perturbados e continuando a rir disse, não há problema se for preciso até se mija-se na cama e diz-se à mulher que estamos a transpirar. Disseram-me depois que ele era sempre assim, bem disposto, até lhe chamavam o cavalo que ri.
Chegada a Mansambo da 1ª CCAÇ/BCAÇ4616 no dia 11FEV1974 a qual rendeu a CART 3494
por ter terminado comissão de serviço
Em Mansambo viajamos muito, mas tal não significa que corrêssemos mais riscos, durante treze meses apenas uma das nossas viaturas acionou uma mina, em Cobumba tínhamos cerca de um quilómetro para percorrer levamos quatro viaturas acionaram uma cada…
Quando éramos periquitos gostava-mos de saber mais, ver o que até há pouco tempo era para a maioria de nós desconhecido mesmo tendo ouvido falar daquelas paragens a camaradas que antes por lá tinham passado. Talvez por isso tenha ficado gravado na nossa memória que mesmo a esta distância no tempo continua a estar bem presente.
António E J Ferreira


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

P299 - MEMÓRIAS DE MÉDICOS CUBANOS (1966-1969) – ‘XIV’ - O CASO DO MÉDICO VIRGÍLIO CAMACHO DUVERGER [IV] -

MSG de Jorge Araújo com data de: 07 de Fevereiro de 2017

Para encerrar o dossier relacionado com as entrevistas dadas por três clínicos cubanos, que estiveram no CTIGuiné nos anos de 1966 a 1969, anexo o quarto e último fragmento relativo às derradeiras questões colocadas ao médico militar Virgílio Camacho Duverger (1934-2003), especialista em cirurgia cardiovascular.
De referir que este médico esteve inicialmente na Frente Leste, onde assistiu à morte do Cmdt Domingos Ramos, em 10Nov1966, tendo transitado para Boké, por ter sido nomeado chefe do Hospital Militar do PAIGC nessa localidade da Guiné-Conacri, aí permanecendo dois meses. Seguiu-se nova transferência, agora para a Frente Sul, onde se manteve até ao final da sua missão, em dezembro de 1967.  
Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.

FEV’2017.

GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE
MEMÓRIAS DE MÉDICOS CUBANOS (1966-1969) – ‘XIV’
- O CASO DO MÉDICO VIRGÍLIO CAMACHO DUVERGER [IV] -


1.   INTRODUÇÃO
Com a presente narrativa dou por concluídos os fragmentos em que foi dividida a entrevista dada pelo médico militar Virgílio Camacho Duverger [1934-2003], especialista em cirurgia cardiovascular, numa tarde de janeiro de 2003 [fez catorze anos] num pequeno gabinete do Hospital Clínico Quirúrgico Hermanos Ameijeiras [imagem ao lado], situado no centro de Havana, onde mantinha uma consulta voluntária todas as terças-feiras. 

Trata-se, com efeito, do último de quatro postes [este e os P284; P286 e P288] relativos ao diálogo que manteve com o jornalista e investigador Hedelberto López Blanch, e que faz parte de uma coletânea de revelações das suas vivências onde constam, ainda, a de mais dois clínicos cubanos que estiveram, nos anos de 1966 a 1969, na Guiné Portuguesa [hoje República da Guiné-Bissau] em missão de “ajuda humanitária” ao PAIGC, na sua luta pela independência.
Os outros dois clínicos que participaram na exposição das suas experiências foram o médico-cirurgião Domingo Diaz Delgado, que esteve na Frente Norte e Leste, entre 1966 e 1967, e o médico de clínica-geral e especialista em cirurgia Amado Alfonso Delgado, que esteve no Leste e em várias bases existentes nas matas do Unal e do Fiofioli, nomeadamente no triângulo Xitole-Bambadinca-Xime, entre 1968 e 1969.
Com a divulgação deste fragmento, encerraremos, também, o projecto designado por «memórias de médicos cubanos», iniciado no P268 com a primeira parte dessa antologia que aqui decidimos divulgar, extraídas do livro editado em língua castelhana pelo jornalista Hedelberto López Blach.
À totalidade dessas memórias e experiências, já sinalizadas anteriormente, haveria o autor de lhes adicionar mais umas quantas recordações gravadas a partir de 1963, nos diferentes contextos das lutas africanas pela independência [Argélia, Congo Leopoldville, Congo Brazzaville e Angola], por outros doze “internacionalistas” cubanos do contingente do “estetoscópio e do bisturi”, e transformá-las em livro a que deu o título de «Histórias Secretas de Médicos Cubanos» [La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005, 248 pp.] ou “on line” em formato pdf, em versão de pré-publicação.
Esta obra acabaria por vencer o «Prémio Memória 2001», do Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, uma instituição independente criada em 1996 com o apoio da União de Escritores e Artistas de Cuba [UNEAC]. Por sua vez a UNEAC é uma associação profissional, cultural e social que reúne escritores, músicos,
actores, artistas plásticos de nacionalidade cubana ou com fortes vínculos com Cuba. Foi fundada em 22 de agosto de 1961 pelo poeta cubano Nicolás Cristóbal Guillén Batista [Nicolás Guillén (1902-1989)] com o propósito de unir os intelectuais em torno do marco da revolução cubana, para manter, fortalecer e expandir a cultura cubana.
2.   – O CASO DO MÉDICO VIRGÍLIO CAMACHO DUVERGER [IV]
Virgílio Camacho Duverger, cujo nome de guerra era “Vítor Córdoba Duque”, nasceu a 29 de novembro de 1934, em Guantánamo, chegando à Guiné-Conacri nos primeiros dias de junho de 1966, a seis meses de completar trinta e dois anos de idade e sete anos após ter ingressado no Exército Rebelde como técnico de saúde.
Depois de ter assistido à morte do Cmdt da Frente Leste, Domingos Ramos, ocorrida em Madina do Boé, em 10 de novembro de 1966 (fez recentemente cinquenta anos), Virgílio Duverger é transferido com destino à Frente Sul, por troca com o médico Rómulo Soler Vaillant, que entretanto adoecera. Porém, durante essa permuta, é nomeado chefe do Hospital Militar de Boké, aonde se manteve durante dois meses.
Aí, em junho de 1967, a base hospitalar dispunha apenas de quinze camas e uma pequena sala de operações. Pouco tempo depois, o Grupo de Clínicos passou a contar com mais uma unidade com a chegada do médico cubano Raúl Currás Regalado, que em determinadas situações desempenhava a função de anestesista.
Como consequência do aumento das enfermidades, nomeadamente a nível da população civil das bases, houve que limitar a entrega de materiais, sobretudo de cirurgia, pois corria-se o risco de poderem fazer falta para os combatentes feridos, por supressão desses produtos, situação entretanto verificada, recorrendo-se, em sua substituição, ao uso de linha doméstica em duas cirurgias.
Nessa altura, a sua equipa acabaria por receber um novo e inesperado reforço, desta vez de um português – o médico Mário Moutinho de Pádua – que seis anos antes, em 1961, ano zero da que se convencionou chamar de «Guerra Colonial» ou «Guerra do Ultramar», decidira desertar da sua unidade militar em Angola, optando por aderir aos objectivos dos movimentos africanos de oposição e resistência às colónias europeias, onde o PAIGC acabaria por contar com a sua colaboração.
Cerca de dois meses depois transitou para uma das enfermarias no mato existentes nas bases da Frente Sul, aonde as acções de combate eram em maior número do que as na Frente Leste devido à quantidade de aquartelamentos portugueses. Desde o local aonde ocorriam os combates até ao hospital, às vezes demorava-se três ou quatro dias para se transportar os feridos e estes chegavam em muito más condições. Como solução, ainda que precária devido à escassez de material como fio cirúrgico e soros, e onde os técnicos de saúde tinham de inventar, foi decidido organizar uma pequena enfermaria para a realização de algumas cirurgias. 
Seguem-se os últimos desenvolvimentos revelados durante a entrevista dada pelo cirurgião militar cubano Virgílio Camacho Duverger.

- Entrevista com 22 questões [Parte 4 > da 16.ª à 22.ª] -
“Testemunhos antes da morte”
O título entre aspas é da responsabilidade do jornalista Hedelberto López Blanch, justificado pelo facto do médico Virgílio Camacho Duverger ter falecido dez meses depois da entrevista, vítima de enfarte do miocárdio.
Eis as últimas questões:
   16. = Que tempo permaneceu na Frente Sul?
Na Frente Sul estive cerca de meio ano. Ali também existia o perigo de cair nas emboscadas dos portugueses, que as faziam, sobretudo, contra a população civil que apoiava os combatentes. Alguns cubanos caíram nessas emboscadas, incluindo quando se deslocavam da Frente Sul até à República da Guiné.
[Estará neste último caso, provavelmente, a morte do soldado cubano Eduardo Solis Renté (1948-1967), natural de San José de las Lajas, capital da Província de Mayabeque, Cuba. A um mês de completar dezanove anos, o seu desaparecimento ficou a dever-se a acidente, por afogamento, quando atravessava um rio do Sul da Guiné, no dia 13 de setembro de 1967. Foi considerado o primeiro mártir internacionalista lajero (de San José de las Lajas) foto ao lado]

Enfermaria em base do PAIGC no interior do território da Guiné (desconhecida)
        17. = Fale-me um pouco mais sobre a ajuda aos civis.
Tínhamos uma orientação geral de atender, na medida das possibilidades, a população civil de acordo com os medicamentos de que dispúnhamos, ou pelo menos atender os doentes. Em relação à limitação de operações devido à escassez de material, estando em Boké, numa ocasião as operações cirúrgicas tinham que ser autorizadas pela direcção política do PAIGC da zona.


Citação:
Mikko Pyhälä (1970-1971), "Mulher com criança aguardando uma consulta num hospital do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=11025.008.042 (2017-2-04
)
Como estavam limitadas as intervenções cirúrgicas tivemos que falar com os alfaiates da região, a quem chamam de feats [talvez colaboradores?!], para confeccionar uma espécie de suspensores, porque a direcção política nos enviava algumas vezes casos de hérnias grandes e não as podíamos operar. Nestes casos enviávamo-los ao alfaiate explicando que isso lhes ia reduzir a hérnia, e que tinham de esperar até que fosse possível operar.
        18. = Quando o avisam sobre o final da missão e como saiu?
No final de 1967, recebo uma mensagem na enfermaria [no mato] aonde me encontrava, dando conta de que já tinha chegado o meu substituto. Vários companheiros cubanos e guineenses saímos caminhando do Sul até a um ponto da fronteira com a Guiné-Conacri, aonde se encontrava um transporte que nos esperava.
Durante a caminhada de cerca de dez quilómetros, tínhamos que evitar as emboscadas dos portugueses e passar por uma zona descampada, onde a aviação lusitana costumava metralhar as pessoas ou grupos que por ali passavam.
Os camiões levavam equipamento e alimentos aos guerrilheiros e eram conduzidos por motoristas-mecânicos cubanos.
A saída da Guiné-Bissau foi em finais de 1967, e na Guiné-Conacri estivemos vários dias num acampamento que chamavam Boa Vista. Ali confraternizámos com o substituto que chegara, sendo que este grupo já não era constituído só por militares, pois existiam alguns médicos civis. O nosso grupo, que foi o primeiro a chegar para apoiar a guerrilha, pude constatar que as coisas iam mudando.
Em Boké o hospital tinha melhorado substancialmente, à frente do qual estava um ortopédico de certa experiência, o doutor Noa, e já tinham um pequeno laboratório, um técnico de raios X e um anestesista. A todos os cubanos que regressavam e passavam por Boké, faziam-se exames médicos e clínicos para tentar descobrir alguma doença endémica da região.
Por exemplo, eu tive paludismo, doença que não existe em Cuba, e eu não sabia até ao momento que me fizeram o exame. Este sofrimento levava a um tratamento em duplicado, um para o parasita adulto e outro para a lavra. Em Conacri não existia o medicamento, sendo necessário adquiri-lo no Senegal ou na Costa do Marfim. Assim, fizeram-me o tratamento, que era com injecções intravenosas e comprimidos.
        19. = Como foi a saída da Guiné e a chegada a Cuba?
Foi por Conacri, no barco cubano Pinar del Rio. O filme voltou-se a repetir porque com esta embarcação voltaram a acontecer os mesmos problemas como os do Lídia Doce, com várias avarias ocorridas no alto mar [Oceano Atlântico].
Chegámos a Cuba em janeiro de 1968, e nos recebeu aquele que é agora general de divisão na reserva, Guillermo Rodriguez del Pozo [1929-2016.07.22], que havia substituído José Ramón Balaguer [Cabrera] [n-1932] como chefe dos Serviços Médicos do MINFAR [Ministério das Forças Armadas Revolucionárias]. Estivemos dois meses de férias e de seguida incorporei-me no Hospital Militar Central Dr. Carlos J. Finlay, como instrutor docente de cirurgia.
        20. = Como transitou para a especialidade de cardiologia?
Mais tarde sou nomeado pelo dr. Guilhermo Rodriguez del Pozo o qual me apresenta a ideia de realizar um estágio em cirurgia cardiovascular. Eu tinha outras ideias, mas depois de reflectir e de ouvir alguns conselhos decidi aceitar. Ele próprio me apresentou ao dr. Noel González [Julio Noel González Jiménez (1928-2016.01.17)], no Instituto de Cirurgia Cardiovascular. [O prof. dr. Noel González (foto ao lado) é considerado pioneiro na cirurgia cardiovascular ao realizar em 1985 o primeiro transplante de coração de Cuba e da América Latina].

Ali estive quatro anos em estágio na especialidade. Posteriormente passei de novo ao Hospital Finlay, para o Serviço de Cirurgia Cardiovascular Hemisférica. Nesta função permaneci dois anos, e para que não cristaliza-se no serviço de cirurgia cardiovascular nas Forças Armadas, solicitei a passagem para a cirurgia geral. Na sequência da autorização, nomearam-me Chefe de Serviço dessa especialidade e mais tarde Chefe de Departamento.
Em 1977, quando se cria o serviço de cirurgia cardiovascular das Forças Armadas no Hospital Naval Luís Diaz Soto transfiro-me para lá como Chefe de Serviço. Em 1982 passo para o Hospital [Clínico Quirúrgico] Hermanos Ameijeiras para fundar o serviço de cirurgia cardiovascular.
No ano de 1992 volto à vida militar e passo para o MININT [Ministério do Interior] como Subdirector do Hospital Nacional de Reclusos situado no Combinado Leste, aonde estou três anos até que me jubilei em 1994.
        21. = Sentia-se bem como jubilado?
Não, era uma vida muito aborrecida e após três anos de jubilação, chamam-me para que ocupe um lugar de cirurgia ambulatória no Município de Havana Leste, aonde continuo até agora (janeiro de 2003, quando se realizou esta entrevista) e aonde realizo pequenas operações três vezes por semana.
        22. = Em quantas operações ao coração participou?
São incontáveis as intervenções cirúrgicas cardiovasculares, mas como cirurgião principal tenho doze transplantes de coração. Um deles, a um doente de apelido Lafita que ainda vive. Já leva catorze anos desde que lhe fiz a operação.
1.   – CONSIDERAÇÕES FINAIS
Corolário das setenta e cinco respostas dadas pelos médicos: Domingo Diaz Delgado (28), Amado Alfonso Delgado (25) e Virgílio Camacho Duverger (22), por esta ordem, às questões abertas formuladas pelo jornalista cubano Hedelberto López Blanch, que permitiram elaborar treze postes distribuídos ao longo dos últimos oito meses (junho’16 a fevereiro’17), resta-me terminar acrescentando alguns apontamentos pessoais.
1.    – No global, considero este trabalho de relevante valor sociocultural e histórico no contexto da dita “Guerra do Ultramar”, por nela ter participado (1972/1974), pois permitiu-me compreender melhor o outro lado do combate no CTIGuiné, não só na vertente militar, mais física, musculada ou operacional, como na dimensão política, que antes (na época) não passavam de meras suposições ou hipóteses, mas que ajudaram a ficar mais próximo da realidade.
2.    – Estes valores, ainda que resultem tão só de três depoimentos de uma panóplia de memórias e experiências gravadas, cada uma delas num espaço temporal de duas dezenas de meses, são-me suficientes para criar empatias quando aos sentimentos, emoções e tensões que influenciavam comportamentos e desempenhos ao comum dos mortais (de ambos os lados), conforme as circunstâncias e os contextos, mas que não poderiam afectar a tomada de decisões ajustadas, nos casos colocados na fronteira entre a vida e a morte, aos que decidiram seguir esta profissão – os médicos.
3.    – Antes de terminar, recupero um quadro de memórias transmitidas pelo médico Amado Alfonso Delgado, como exemplo paradigmático da tríade: sentimentos, emoções e tensões, visando sintetizar aquela que foi a odisseia dos “internacionalistas cubanos” no âmbito da sua ajuda humanitária ao PAIGC:
“Entre maio de 1968 e setembro de 1969 [dezassete meses], movimentou-se nas matas do Unal e do Fiofioli [Sector L1 - Bambadinca], com destaque para esta última frente, aonde esteve os primeiros nove meses de 1969, durante os quais teve muito trabalho, com enormes sobressaltos, muitas corridas em ziguezague, rastejanços e dores de barriga (com diarreias), que implicaram sucessivas trocas de acampamento, incluindo a destruição das suas enfermarias, por quatro vezes.
Esteve cercado por várias vezes. Viu aviões bombardeiros, helicanhões, barcos da marinha e militares descerem de helicóptero. Para além dos constantes ataques a que esteve sujeito, foi também atacado por melgas que lhe perfuraram a roupa que tinha no corpo e por centenas de abelhas que lhe “ofereceram” os seus ferrões. Por tudo isto passou vários meses sem ter contacto com o mundo. Devido a todas estas ocorrências e das tensões a elas associadas, por efeito da intervenção dos militares portugueses em diferentes acções naquela região, acreditou não ser possível sobreviver, pensando muito nos filhos, que iriam ficar sem pai… coitados”.
4.    – Concluo este trabalho, a que chamei de «memórias de médicos cubanos (1966-1969)», afirmando que “conclusão” [para mim] não significa o fim… mas, antes, o princípio de um outro processo de aquisição de novos saberes, que podem incluir outros clínicos.
Até lá…
Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
07FEV2017.
[Consulta em 30 de maio de 2016]. Disponível em:

Vd. Postes anteriores da série:

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

P298 - O dia mais triste do meu tempo de Guiné, Por: Eduardo Ferreira - CART 3493 - 1972/74


MSG de: António Eduardo Jerónimo Ferreira, ex. 1º cabo condutor auto da CART 3493 do BART 3873, Mansambo, Fámandinga, Cobumba e Bissau, 1972/74, com data de 27 de Janeiro de 2017 publicada também em "molianos" do qual é editor.


O dia mais triste do meu tempo de Guiné


Mansambo 1973
Quando “tropeçamos” no passado mesmo que tal tenha acontecido há já muito tempo a mente leva-nos a viver situações que podem ser boas ou más, mas não há como fugir. Foi o que aconteceu comigo há dias ao ler um dos postes publicado no blogue Luís Graça e camaradasda Guiné sobre a construção das instalações de Mansambo onde eu estive treze meses.
Cheguei aquele local uns dias mais tarde que a minha companhia, e no dia que os “velhinhos” nos deixaram fiz o meu primeiro serviço, acompanhado pela G3 que era para mim quase desconhecida, fui um dos que foram fazer segurança ao pessoal que andava a transportar a água para as nossas instalações, chuveiros, cozinha e abrigos. Eramos oito os homens da companhia
incluindo o motorista do unimog e o ajudante, mais os picadores que eram três. A distância entre as
Unimog 411 - Foto da: áreamilitar do Exército Português 
nossas instalações e fonte era de poucas centenas de metros mas pela manhã o trajeto era sempre picado para que o unimog 411 e acompanhantes pudessem passar em” segurança” não fosse estar por lá alguma mina colocada durante a noite.
Quando lá chegamos fomo-nos distribuindo para junto de algumas das árvores que lá existiam, só regressamos às instalações próximo da hora de almoço. Foi à sombra de uma de maior porte que me “instalei”. Enquanto lá estivemos não me lembro de ter falado com algum dos camaradas ali em serviço mas sei que o cérebro não parou de pensar, em quase tudo, só que em nada de bom.
António E. J. Ferreira, 1972
Ver os velhinhos partir com a alegria natural de quem conseguiu chegar ao fim da comissão e vai regressar a casa, e pensar no tempo que nos faltava para que também nós pudéssemos viver um dia assim… na altura, falava-se que seria vinte e dois meses depois foram quase vinte e sete. Preparação para a guerra na Metrópole eu não tive, apenas tinha utilizado a arma duas vezes onde disparei cinco tiros de uma vez e vinte de outra.
A minha recruta e a especialidade foi feita em apenas três meses, No Trem Auto, dos quais três semanas foram passadas no hospital, HMDIC em Lisboa, depois oito meses no RAP3 Figueira da Foz com a especialidade de monitor auto. De guerra e armas nada conhecia, daí a minha falta de preparação, tive que me habituar à situação que todos vivemos, mas fui sempre um fraco guerreiro. Era já perto de meio- dia quando regressamos da fonte, estava psicologicamente arrasado, foi então que antes do regresso me ocorreu uma frase que escrevi num papel que tinha comigo e que me acompanhou durante todo o tempo de comissão simplesmente dizia: tem calma, ainda és jovem e o tempo ade passar. Foram várias as vezes que li essa frase assim como outras que entretanto fui escrevendo. Algumas vezes ajudou mesmo… Mas aquele dia foi de todos o mais triste… ainda hoje está presente na minha mente como se fosse ontem. Mais tarde em Cobumba passei por momentos bastante mais difíceis, mas aí, a tristeza não raramente passou a dar lugar à raiva…

António EJ Ferreira.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

P297 - I CONGRESSO DO PAIGC EM FEVEREIRO DE 1964 NO SUL (Por; Jorge Araújo)

MSG de Jorge Araújo com data de 13JAN2017

Para iniciar a minha participação no blogue, neste Novo Ano de 2017, parti do estudo sócio-demográfico realizado sobre o bi-grupo do Cmdt Mário Mendes (1943-1972), adicionando-lhe o que entretanto apurei sobre o valor atribuído às dimensões “saúde” e “formação escolar”, por parte dos dirigentes do PAIGC, após a realização do seu I Congresso organizado em fevereiro de 1964 na Base de Cassacá, a Sul de Cacine (Frente Sul).
Com um forte abraço de amizade. 
Jorge Araújo.

JAN’2017.

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)
GUINÉ: (D) O OUTRO LADO DO COMBATE
I CONGRESSO DO PAIGC EM FEVEREIRO DE 1964 NO SUL
- A IMPORTÂNCIA SOCIAL DA SAÚDE E DA INSTRUÇÃO LITERÁRIA
ANALISADAS NA BASE CENTRAL (MORÉS) EM MARÇO DE 1964 -
1.   INTRODUÇÃO
Concluído o tradicional ciclo festivo anual, onde as dimensões tempo e espaço são reservadas, maioritariamente, para os núcleos familiar e sociais mais próximos, primeiro o Natal e depois a despedida do ano velho, alargado a outros pares por razões diferentes, retomamos quase sempre as rotinas anteriores, ainda que se reformulem expectativas e se acrescentem outras, em resultado de novos desejos e objectivos, na maioria das vezes influenciados pelo imemorial ditado popular «ano novo, vida nova».
Dito isto, e nesta oportunidade, desejo-vos um MELHOR ANO de 2017.
Quanto à temática prospectiva das minhas narrativas, que espero e desejo dar continuidade neste espaço plural, elas continuarão a cruzar os territórios de cada um dos lados do combate, relevando as diferentes acções e o sentido de cada uma delas, visando alargar a sua dimensão historiográfica como um contributo para memória futura.
Assim, como causa/efeito para a elaboração do presente trabalho de investigação histórica está o estudo sociodemográfico relacionado com o bi-grupo do Cmdt Mário Mendes (1943-1972) [apresentado no P296], a que se adiciona os comentários do nosso camarada Cmdt Pereira da Costa [P16891-LG], em particular quando se refere à baixa preparação literária dos guerrilheiros, considerada como realidade inquestionável.
Porque cada comentário, independentemente da sua pertinência ou assertividade, nos permite abrir uma ou mais “janelas” de novas abordagens, o presente texto é disso consequência e/ou exemplo concreto.
Uma vez que só a partir de 1966 foram elaboradas pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra as listas das FARP referentes à constituição dos bi-grupos existentes em cada Frente, onde em muitas delas nada consta sobre a variável «formação escolar» de cada individuo, procurámos indagar sobre o que pensavam, naquela época, os principais dirigentes do PAIGC sobre esta problemática.
Para o efeito utilizámos uma vez mais, como fonte de informação privilegiada, a Casa Comum, Fundação Mário Soares, que agradecemos, reforçada com consultas ao vasto espólio do blogue da Tabanca Grande, com especial destaque e a devida vénia aos trabalhos de recensão - «Notas de Leitura» - do camarada Beja Santos.
Neste contexto e como cronologia de partida, recuámos ao ano de 1964, em particular aos fundamentos que levaram à realização do I Congresso do PAIGC, organizado numa área próxima da Tabanca de Cassacá, situada a cerca de quinze quilómetros a Sul de Cacine, e que serão resumidos no ponto seguinte.
2.   I CONGRESSO DO PAIGC – CASSACÁ [FRENTE SUL]
   - DE 13 A 17 DE FEVEREIRO DE 1964
O tema sobre a realização do I Congresso do PAIGC, organizado entre 13 e 17 de fevereiro de 1964, por proposta de Luís Cabral (1931-2009), em Cassacá, base situada a quinze quilómetros a Sul de Cacine e a trinta da fronteira com a Guiné-Conacri, foi já abordado nos P4122-LG (Luís Graça) e P4137-LG (CarlosSilva).
Ainda assim, voltamos a ele com uma dupla intenção. Por um lado, recuperando o processo histórico mais global, e por outro adicionando-lhe outros elementos particulares incluídos na organização e na vida interna do PAIGC, nomeadamente nas bases criadas no interior do território, como instrumentos de mobilização e motivação para prosseguirem a luta.
É de relevar que os antecedentes do Congresso, a visita de Luís Cabral à zona de Quitafine e Tabanca de Cassacá em finais de 1963 [quiçá na perspectiva de “ano novo, vida nova”], as informações recolhidas em todos os contactos estabelecidos com os combatentes e aquelas que lhe chegavam das frentes, levaram a que o irmão [Amílcar Cabral; 1924-1973] aceitasse, como necessária, a realização de uma reunião geral dos quadros responsáveis pelo Partido, no sentido de se poder discutir e aprofundar esta questão, de maneira a tirar dela todas as lições para o futuro, numa altura que estava concluído o primeiro ano da luta armada.
Os fundamentos que estão na base deste projecto de intenções, bem como o desenvolvimento de cada uma das diferentes acções previstas para antes, durante e depois deste I Congresso podem (devem) ser consultadas no livro de memórias de Luís Cabral: “Crónica da Libertação”, (1984), Lisboa, Edições ‘O Jornal’. Publicações Projornal.
Por isso, é da mais elementar justiça referir aqui o importante trabalho de recensão realizado pelo camarada Beja Santos sobre esta obra que, em função do seu valor e extensão, teve de ser divido em cinco partes: – P7216; P7223; P7232; P7241 e P7259-LG.
Com a devida vénia, aproprio-me, neste contexto histórico, de uma passagem da sua autoria [P7232-LG] onde refere: “Em finais de 1963, Luís Cabral faz a primeira visita ao Quitafine, a partir de Sangonhá, depois partiram para a base de Cassacá, onde foi recebido por Manuel Saturnino [da Costa; n-1945-]. Em Cacine estava instalado o primeiro quartel das tropas portuguesas, a que se seguiu Gadamael. Segundo Luís Cabral, as tropas portuguesas estavam confinadas a Cacine.
As viagens eram morosas e dolorosas, entre a estrada de Boké e a fronteira. Depois vem uma frase enigmática: o Amílcar e o Aristides [Pereira; 1923-2011] foram as únicas pessoas com quem falei sobre os graves problemas que existiam nalgumas zonas do Sul do país. Este facto trazia-nos dados completamente novos sobre a luta, e provou a fragilidade das imensas conquistas obtidas, postas em causa unicamente por falta de informações precisas e controladas sobre a situação real nas diferentes zonas do país.
A experiência acabava de mostrar que os jovens responsáveis da guerrilha eram capazes de esconder ao Secretário-Geral informações de importância capital, quando elas pudessem pôr em causa outros responsáveis. O que se estava a passar era que um conjunto de chefes de guerrilha exercia um poder despótico sobre as populações, chegando a cometer crimes inenarráveis. Independentemente de serem jovens, é incompreensível como tais crimes sistemáticos eram escondidos dos quadros políticos. Como se verá no Congresso de Cassacá, estes criminosos (cuja relação nunca vai aparecer talhada em qualquer documento) serão sumariamente executados, no termo desta reunião”.
2.1 – FOTO-GALERIA DO I CONGRESSO DO PAIGC - 1964
Citação:

Luís Cabral (1964), "Amílcar Cabral e outros companheiros a caminho do I Congresso do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43297 (2017-1-9)
Citação:

(1964-1964), "Amílcar Cabral e grupo de dirigentes do PAIGC a caminho do I Congresso de Cassacá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43071 (2017-1-9)

 Citação:

(1964-1964), "Amílcar Cabral e outros responsáveis do PAIGC no I Congresso do partido em Cassacá, na Frente Sul", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43300 (2017-1-9)


Citação:
(1964), "I Congresso do PAIGC em Cassacá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_85095 (2017-1-9) 

Citação:
(1964-1964), "Abdulai Barry, Arafam Mané, Amílcar Cabral, Domingos Ramos e Lai Sek no I Congresso do PAIGC, em Cassacá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43444 (2017-1-9)


Fonte:
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 05224.000.046
Título: Abdulai Barry, Arafam Mané, Amílcar Cabral, Domingos Ramos e Lai Sek no I Congresso do PAIGC, em Cassacá.
Assunto: Abdulai Barry, Arafam Mané, Amílcar Cabral, Domingos Ramos e Lai Sek, durante o I Congresso do PAIGC, em Cassacá, na Frente Sul.
Data: Quinta, 13 de Fevereiro de 1964 – Segunda, 17 de Fevereiro de 1964.
Observações: O Congresso de Cassacá (que decorreu em simultâneo com a Batalha de Como) reuniu os principais dirigentes políticos e militares do PAIGC e delegados vindos de todas as regiões do país. Entre as principais decisões do Congresso figuram a reestruturação do partido no plano político, o reforço da mobilização e organização das massas populares, e a reorganização da luta armada (criação de comandos inter-regionais, do Conselho de Guerra, e das FARP – englobando a guerrilha, as milícias e o exército popular).
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Fotografias.
3.   – A IMPORTÂNCIA SOCIAL DA SAÚDE E DA INSTRUÇÃO
   LITERÁRIA ANALISADAS NA BASE CENTRAL [MORÉS]
            - EM 21 DE MARÇO DE 1964
Um mês após a conclusão do I Congresso de Cassacá, na Frente Sul, os responsáveis da Frente Norte, Ambrósio Djassi [nome de guerra de Osvaldo Vieira; 1938-1974] e Chico Té [nome de guerra de Francisco Mendes; 1939-1978] tomaram a iniciativa de convocar uma reunião para o dia 21 de março de 1964, sábado, a realizar na Base Central [Morés] entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários [políticos] com o objectivo de estudar e discutir as novas fases do desenvolvimento da luta, e ao mesmo tempo para pôr todos os camaradas ao corrente das resoluções aprovadas na reunião de Cassacá.
No final da reunião do Morés foi elaborado o respectivo relatório, que foi remetido ao Secretário-Geral, e por este recebido em 4 de abril de 1964, onde se fez referência aos temas tratados, ao conteúdo de cada intervenção e ao nome de todos os responsáveis que nela tomaram parte, num total de cinquenta e seis elementos.
Eis os dez pontos da Ordem do Dia [dos Trabalhos]:
  1. - Mudança de Táctica.
  2. - Criação de novas bases.
  3. - Recrutamento e treinos.
  4. - Política.
  5. - Disciplina Militar.
  6. - Alimentação.
  7. - Saúde.
  8. - Instrução literária.
  9. - Segurança e controle.
10. - Ligação
Como ponto extra foi abordado o “ataque ao Enxalé” e analisada a sua necessidade.
Considerando a extensão do documento, constituído por doze páginas A4 manuscritas, iremos abordar neste texto somente os pontos 7 e 8, relacionados com os assuntos sociais – saúde e educação –, aliás em conformidade com o exposto na introdução. Esta opção é justificada pelo facto de termos vindo a tratar o tema da saúde utilizando as memórias e experiências vividas por médicos cubanos no apoio à guerrilha, cujos relatos são posteriores a este evento (dois anos; com início em junho de 1966).
Eis a folha de rosto, ou 1.ª página, onde consta o que acima foi referido.   
Ponto 7 = SAÚDE
Djassi – Tudo o que já fizemos e pensamos fazer é devido ao estado normal da nossa saúde. Passo a palavra ao nosso camarada Simão Mendes [enfermeiro] para nos apresentar o relatório elaborado em colaboração com os outros camaradas da saúde.
Simão Mendes – Digo aos camaradas que vou relatar 10 pontos principais conforme o relatório que fizemos:
1 – Medicamentos: - os medicamentos passarão a ser requisitados trimestralmente, requisitando só os medicamentos de maior consumo na Guiné, dando uma regalia aos guerrilheiros como ao povo. Requisitar materiais de pequena cirurgia o mais breve possível.
2 – Doentes para a fronteira: - mandar urgente para a fronteira todos os feridos ocasionados por ferimento de balas uma vez que não há já recursos locais para a sua extracção. Formar um grupo de transporte de doentes ou feridos graves para a fronteira. Esse grupo será nomeado pelo responsável pela Zona Norte. 
 3 – Preparação de Ajudantes de enfermagem para outras bases: - serão escolhidas meninas e rapazes para receberem noções de socorros urgentes e de enfermagem.
4 – Escala de Serviço e sua conveniência: - far-se-á uma escala de serviço nomeando cada enfermeiro para a sua responsabilidade diária.
5 – Ginástica, sua necessidade e inconveniência: - a ginástica continuará a ser feita como dantes, isto é, todos os dias principalmente para os recém-chegados.
6 – Visitas guiadas às bases: - deslocação quinzenalmente às bases; nesta visita o enfermeiro escolhido procurará colaborar com o povo estudando assim as doenças de 1.ª instância. Serão construídas duas barracas para consultas.
7 – Noções ligeiras de primeiros socorros aos guerrilheiros: - fazendo parte da guerrilha é lícito que todos os guerrilheiros tenham noções de primeiros socorros. Oferecemos a nossa boa vontade neste momento.
8 – Higiene e sua conveniência: - fazendo parte da saúde, para evitar certas doenças, devem todos os guerrilheiros seguir os princípios da higiene do vestuário e limpeza de barracas.
9 – Escala de serviço e sua conveniência: - far-se-á uma escala de serviço, nomeando cada enfermeiro para a sua responsabilidade diária. (Este ponto é igual ao 4).
10 – Colaboração mútua em tudo que diga respeito ao nosso movimento com o povo e guerrilhas: - colaborar com a nossa população explicando a todos as inconveniências que o abuso excessivo dos medicamentos pode ocasionar. Paciência absoluta, dando ao povo explicações do emprego de medicamentos.     
 Resolução:
Todos os camaradas estiveram de acordo com as proposições dos camaradas da saúde e resolveram criar forças para garantir a execução do que está acima indicado.      
Ponto 8 = INSTRUÇÃO LITERÁRIA
Djassi – Depois de tudo devemos começar a pensar na instrução dos guerrilheiros e do povo. Hoje podemos dispor de alguns livros apanhados e que já empregamos para o mesmo fim. Os camaradas que vieram de Bissau vão ser distribuídos nas bases para começarem a instrução literária.
Chico Té – Devemos fazer esforços para pôr isso em prática o mais breve possível apesar de poucos meios do que nos dispomos actualmente.
Resolução:
Todos os camaradas estiveram de acordo neste ponto, e os camaradas que vieram de Bissau vão ser distribuídos nas bases a fim de começar com a instrução literária. Devido à falta de material escolar solicitamos aos dirigentes superiores do Partido o envio de algum material neste campo.
Citação:
(1964), "Relatório da reunião entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários da Base Central", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40112 (2017-1-8)
Fonte:
Pasta: 04613.065.157
Título: Relatório da reunião entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários da Base Central.
Assunto: Relatório da reunião entre os responsáveis de bases e os sub-comisssários da Base Central, assinado por Chico Té (Francisco Mendes) e Ambrósio Djassi (Osvaldo Vieira). Ordem do dia: mudança de táctica, criação de novas bases, recrutamento e treinos, política, disciplina militar, alimentação, saúde, instrução literária, segurança e controlo e ligação. Ataque de Enxalé.
Data: Sábado, 21 de Março de 1964.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos Responsáveis da Zona Sul e Leste).
Tipo Documental: Documentos

Em função do exposto, e em jeito de conclusão, podemos dizer que a organização do PAIGC, passados quinze meses do início da sua luta armada, ainda era excessivamente precária, onde os adjectivos: instável, delicada, insegura, débil e pobre, enquanto sinónimos, completam o seu quadro mais global.
Mas poderia ser diferente para melhor?
Não creio… pois tudo na vida é processo e projecto.


Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade e votos de boa saúde.
Jorge Araújo.
13JAN2017